No jardim de ‘Mama’ Obama

Kenya 2012

By Juliana Resende

June 23, 2012

Also published at BR Press

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Avó postiça de Barack Obama, Sarah Onyango Obama tornou-se uma atração turística no Quênia, país do avô paterno do presidente dos EUA, Barack Obama Sr., onde ele se casou, pela terceira vez, com esta mulher, hoje com 90 anos. Matriarca conservadora, respeitada e poderosa, 'Mama' Sarah tem agenda cheia e visita só com hora marcada. "Tive malária há dois dias", dispara ela, para apressar os forasteiros, afinal precisa descansar.

Sarah Obama avisa que seu trabalho data muito antes da eleição de Barack.

Photo: Julienne Gage

Paparicada e ao mesmo tempo vigiada pelo governo queniano – soldados fazem a segurança de sua propriedade e uma intérprete-secretária-censora acompanha 'Mama' Sarah em seus encontros e reuniões, especialmente com a imprensa estrangeira, como foi o caso do grupo de 11 jornalistas de diversos países (Brasil representado por Juliana Resende, editora-executiva da BR Press), Sarah Obama conversou com o bando na última quinta-feira (21/06), na aprasível sombra de uma das várias árvores de sua propriedade. Até o sol magicamente resolveu aparecer para vê-la.

Falando em luo – o dialeto de sua tribo –, Sarah Obama tem uma presença forte, o porte de uma imperatriz africana, num cruzamento de impressionante vitalidade entre Rainha Elizabeth, Nelson Mandela, preta velha e mãe-de-santo. É, sem dúvida, a mulher mais requisitada senão influente do Quênia. Sua nobreza pode ser intimidadora e, com autoridade natural de sua Alteza, responde a perguntas olhando intensa e seriamente para tudo – menos diretamente ao interlocutor sob total dependência do filtro da tradutora- censora (que depois revelou ser originalmente policial).

Entidade

"Mama" Sarah, como é chamada por seu trabalho com orfãos (maioria de pais com Aids) em Kogelo, vila nos arredores de Kisumu, a terceria maior cidade do Quênia, é quase que uma "entidade". Manda e desmanda, fica exaltada quando seus coelhos tentam escapar da propriedade – sem luxo, mas extremamente bem cuidada, em comparação às péssimas condições gerais de moradia no país (sem luz elétrica, água encanada e esgoto) – e deixa claro que não quer ser filmada (fotografada, só no final da "coletiva").

Sarah Obama ajuda atualmente 60 órfãos na escola primária e 25 na secundária. "Não faço isso porque tenho dinheiro, mas porque tenho ajuda", diz ela, olhar fuzilante. Entre os doadores da fundação que não tem website nem contato para potenciais doadores se comunicarem com os "encarregados" (a tradutora-censora sugere que deixemos cartões para que eles entrem com contato conosco fornecendo as direções) estão Japão (cobertores), China (sapatos) e o próprio governo do Quênia (comida).

Orgânica

O projeto social de Sarah Obama também inclui oficinas de cultivo de hortas e animais – seu jardim está cheio deles. Aliás, uma das razões apontadas por ela pela boa saúde e disposição: "Miss Obama planta sua própria salada e come ovos de suas galinhas", diz a intérprete. Galinhas, de fato, correm soltas pelo quintal afora, assim como um peru e coelhinhos graciosos que insistem em fazer aquilo ironicamente enquanto 'Mama' Obama se declara contra o planejamento familiar e médotos contraceptivos, muçulmana devota que é, mesmo num país mergulhado na pobreza extrema.

"Sou a favor de dar poder às mulheres e educação para que possam cuidar de si mesmas", afirma Obama. Sorrisos de aprovação se propagam pela audiência, hipnotizada pela postura eletrizante da matriarca e pelo encantamento do lugar, realmente muito agradável. Isso até ela declarar, sem qualquer cerimônia, que é a favor de que mulheres apanhem de seus maridos. Se ela própria apanhava de vovô Obama ninguém teve coragem de perguntar. Mama teve oito filhos (dois morreram) e dez netos. Casou-se aos 19 anos e nunca foi à escola. Vive com três órfãos e o modesto séquito de empregados.

Sarah não gosta de falar de Obama. Prefere os projetos de Mama – pouco explicados em detalhes. Na verdade, ela, o presidente e sua mulher, Michelle, que já visitou vovó duas vezes, falam-se pouco (há a barreira da língua). Sarah evita a o excesso de intimidade forçada. "Meu trabalho data muito antes da eleição de Barack", afirma. Mas o hype em torno do parentesco cresceu depois da posse do neto na Casa Branca – celebrada pela embaixada dos EUA no Quênia, tendo Mama como convidade de honra.

A anciã, mesmo jurando não receber qualquer ajuda direta de Obama, embora admita a boa publicidade, fala com intimidade do neto indireto: "As pessoas pedem para que eu mande mensagens para ele, mas não o incomodo – é muito ocupado e tem muito a fazer". Por exemplo? "Ajudar a encontrar a cura para doenças e zelar para paz mundial". Paz, para Miss Obama, é o que está mais faltando para os quenianos, mesmo reconhecendo que a corrupção é uma praga que "tira a oportunidade das pessoas" e afirmando, nostálgica, que preferia viver sob a administração colonial, apesar de declarar apoio ao atual Primeiro Ministro, Odinga, à presidência do Quênia em 2013.