How Are You? (Portuguese)

Kenya 2012

By Juliana Resende

June 19, 2012

Also published at BR Press

Read an English translation.

Girl in Kibera, a mega-slum in Nairobi, Kenya.

Juliana Resende

Esperar ver desgraça social, política e econômica numa favela da África soa como chover no molhado. Todo (o) mundo sabe que o continente é o mais pobre, judiado e subdesenvolvido do planeta. Mas Kibera, a maior 'slum' subsaariana, encravada na capital do Quênia, Nairobi, é de aterrorizar o mais informado dos forasteiros. O lugar é o inferno a céu aberto e foi, com grande impacto, o 'tour' inaugural do programa da ONG International Reporting Project (IRP), que leva a BR Press ao Quênia.

Kibera está para o Quênia e toda a África assim como o HIV e a Aids: uma  desvastação interna do corpo na mesma proporção da que se vê no ambiente, como uma resposta biológica e dramática aos séculos de maus tratos. Pois Kibera se impõe como um pesadelo criado há mais de 100 anos, ainda nos tempos da colonização britânica do Quênia, quando os ingleses trouxeram trabalhadores do vizinho Sudão para assentar na região. Tornou-se um conglomerado de miséria, sujeira e doenças, mesclando tristeza, resistência, apatia e, acredite, esperança.

Décadas e mais décadas de ocupação irregular, sem luz, água encanada e esgoto, sem coleta de lixo, com uma concentração de gente estimada em 30 mil vivendo abaixo da linha da pobreza (menos, bem menos, nesse caso, que US$ 1 dólar por dia) deram no que pudemos conhecer na última segunda-feira (18/06). O fedor putrefante do lugar ainda está comigo. Jamais deixará as lembranças de Kibera e suas crianças, com os olhos vivos, pedindo um pouco de atenção, serelepes a perguntar: "How are you?".

Elas repetem esse bordão sem parar aos visitantes, brincando, pulando e zombando, ainda que com a ingenuidade inerente de sua infância, da condição a que estão sendo submetidas. "How are you?" – isso, sim, soa inesperado, dilacerante, desolador. É frase em inglês que ensinam nas escolas (Swahili é a língua oficial local), uma forma educada de cumprimentar o outro. O outro? Que outro, afinal, supostamente teria coragem de perguntar a uma criança brincando numa lama de culiforme fecal e poluição, naquele lugar medonho e fedorento, sem qualquer condição de sobrevivência ou perspectiva? "Como você está?". Só pode ser brincadeira.

A resposta nos envergonha mais que entristece. A pobreza abjeta a que essas crianças (além de seus pais e avós) são submetidas é, sim, uma questão para todos nós. O erro é coletivo de uma civilização que usurpa os direitos básicos de uma camada vulnerável e irremediavelmente condenada ao descaso da população mundial, concentranda na África de maneira chocante, deseperadora. A culpa não é da Aids. Ela é consequência da fome, do abandono, da falta de higiene, da corrupção imoral. Rose Cangua, 40, perdeu o marido soropositivo há três anos, quando ela começou a se tratar. Toma antiretrovirais "grátis" mas não come todos os dias. Dos seus três filhos, o mais novo, de 4 anos, também é soropositivo. Moram ao lado de um córrego fétido num barraco de barro escuro e sujo.

Quem conhece favelas no Brasil, onde 28 milhões de pessoas saíram da pobreza absoluta mas 16 milhões de ainda permanecem na pobreza extrema – está preparado para Kibera? Não. Ninguém poderia ou deveria estar preparado para presenciar aquilo, quiçá viver naquelas condições sub-humanas. O governo do Quênia – com seus 38 milhões de habitantes e quase 50% sem acesso a US$ 1/dia – muito menos. Médicos Sem Fronteiras? Fazem o que podem em Kibera enquando o povo usa seus "flying toilets" – como chamam a prática de jogar "para cima" excrementos. O Ministério da Saúde? "Não temos verba". A comunidade internacional? Pergunte a Obama (os EUA são os maiores donatários de programas humanitários no Quênia, onde o presidente tem família), reclame com o bispo. Ainda assim, uma criança sorri em Kibera.

How are you about it?

Juliana Resende, writer/editor for BR Press, is blogging from the International Reporting Project's reproductive health-themed trip to Kenya.