Karibu! Dar es Salaam, Dia 1

Tanzania 2013

By Patricia Campos Mello

September 30, 2013

Also published at Folha de S. Paulo

A fome na África é um tema que raramente merece notícias nos jornais ou TVs, a não ser quando ganha proporções catastróficas, como em 1983 na Etiópia.

Ainda menos espaço é dedicado a matérias sobre a África que dá certo – esforços bem-sucedidos para aumentar a produtividade da agricultura e combater a fome no continente.
Este blog, que começa hoje na cidade de Dar Es Salaam, a maior da Tanzânia, vai abordar exatamente isso.

Trata-se de uma bolsa do International Reporting Project, sediado na Universidade Johns Hopkins, financiado pela Fundação Bill and Melinda Gates, para cobrir matérias relacionadas a fome, pobreza e segurança alimentar durante 11 dias, em diversas regiões da Tanzânia. Foram selecionados 11 jornalistas –a grande maioria americanos, apenas dois estrangeiros.

A ideia da bolsa é cobrir assuntos de importância global que têm sido negligenciados pela imprensa.E será uma cobertura multimídia – estarei tuitando, blogando, escrevendo matérias para o jornal impresso, fazendo vídeos para a internet, fotografando e gravando para o TV Folha, que é apresentado na TV Cultura aos domingos. O objetivo é mostrar os avanços na agricultura familiar da Tanzânia, pequenas soluções e tecnologias que estão mudando o dia a dia em um dos países mais pobres do mundo.

Cerca de 68% dos tanzanianos vivem com menos de US$ 1,25 por dia. No Brasil, são 6,1% que vivem nessa condição de miséria extrema, segundo a ONU.

Mais de 80% dos habitantes da Tanzânia trabalham na agricultura (15,7% no Brasil) –daí a importância de se estimular o setor.

Por muitos anos, entidades dos países ricos relutaram em incentivar o setor agrícola dos países africanos. Eles se limitavam a dar ajuda em espécie. Ou focavam seus programas em saúde e disseminação da democracia, uma agenda especialmente forte no governo Bush filho.

Durante o reinado do chamado Consenso de Washington, toda a ajuda vinha condicionada a cláusulas de livre mercado – eliminar subsídios e suportes à agricultura. O resultado foi a falência de um setor agrícola que já não ia nada bem.

Agora, existe a conscientização de que aumentar a produtividade dos pequenos agricultores está no cerne do desenvolvimento africano. Várias ONGs se dedicam a conceder empréstimos para agricultores comprarem fertilizantes e pesticidas, treinam os trabalhadores rurais em técnicas de plantio e colheita para aumentar a produtividade, disseminam tecnologias para aumentar o acesso a energia solar e métodos mais eficientes de armazenagem.  O Brasil está engajado em programas semelhantes em Moçambique, Mali, Gana e Senegal.

Vamos para a Tanzânia testemunhar técnicas que estão ajudando a combater a fome em pequenas aldeias, inclusive dos Maasai, e na zona urbana no país.

A renda per capita na Tanzânia é de apenas US$ 1600 (números de 2012 – Brasil foi de US$ 12100). E a expectativa de vida é 60 anos (73 no Brasil).

Mas o país africano está emergindo – entre 2009 e 2012, teve crescimento médio de 6%. Em 2012, enquanto o Brasil cresceu parcos 0,9% do PIB, a Tanzânia avançou 6,9%. Welcome to Tanzania! Karibu (Bem-vindo)!