A revolução do celular não chegou na agricultura da Tanzânia

Tanzania 2013

By Patricia Campos Mello

October 02, 2013

Also published by Folha de S. Paulo

Uma série de empresas na Tanzânia, como no resto da África, está criando aplicativos para celular para que os agricultores possam se informar sobre preços das commodities. Parece uma coisa básica, mas é uma revolução, em um país em que a assimetria de informação impera.

Cerca de 80% da população do país está empregada na agricultura. Destes, a esmagadora maioria é composta de pequenos agricultores. Esses agricultores sempre dependem de um intermediário para vender sua produção. Como eles não têm acesso a informações sobre preços, o intermediário normalmente paga muito pouco aos pequenos agricultores, e repassa o produto com grande margem.

Esses novos aplicativos de celular se propõem a nivelar o acesso a informação – os agricultores recebem por SMS os preços do arroz, trigo, milho, os principais produtos vendidos por eles na Tanzânia.

Mas aí começam os desafios.

Apesar de grande parte dos tanzanianos terem celular, e este ser usado inclusive para fazer pagamentos, a cobertura das redes de telefonia ainda é bastante irregular, como é possível atestar aqui no interior na Tanzânia, em Morogoro, ou mesmo em Dar es Salaam, principal cidade.

Além disso, há uma multidão de empresas tentando se tornar “o padrão” – muitas pagam os agricultores para usar seus produtos, mas eles acabam trocando pela próxima empresa que paga pelo “treinamento”.

Uma das empresas tentando conquistar os agricultores é a Nuru Infocomm, de John Kagaruki. “Nosso app vai ajudar os agricultores a terem poder de barganha”, diz Kagaruki.Ele tem visitado centenas de agricultores para convencê-los a usar seu serviço. E quer que não se limite a preços de commodities – haverá serviços para traders, para os armazéns, etc.

Os agricultores pagarão uma assinatura de 1500 xelins tanzanianos por mês – menos de 1 dólar – por mês.

Uma outra empresa deste mercado superpopulado, a Jamaa Technologies, requer que os agricultores mandem um SMS perguntando informações sobre o produto que lhes interessa. Mas aí esbarra em problemas primários –o analfabetismo, por exemplo. Muitas vezes eles não entendem a pergunta enviada pelo agricultor.

Segundo um estudo de 2012 do Banco Mundial, “Maximising Mobile”, o celular tem sido usado por agricultores para acessar preços, condições meteorológicas e doenças. Em Gana, por exemplo, o serviço de preços de commodities por SMS resultou em aumento de 10% na renda dos agricultores.

O caso de sucesso é a Reuters Market Light (RML), lançada pela Reuters em 2007 na Índia. Para assinar, o agricultor liga para um número gratuito e ativa o serviço de informações sobre preços, clima e doenças em sua língua local.

Estudos mostram que os agricultores que assinam o serviço aumentam em cerca de 5% a 10% sua renda. Cerca de 250 mil agricultores em dezenas de milhares de vilarejos são assinantes. eles assinam com um cartão pré-pago, tipo raspadinha, que dá acesso ao serviço por um determinado período.

Mas o Banco Mundial alerta que o modelo de negócios é difícil, uma vez que a assinatura cobrada por esses serviços precisa ser muito baixa, dado o nível de renda dos agricultores, e o custo por assinante ainda é relativamente alto.

Para atingir escala que torne os Apps agrícolas viáveis economicamente, seriam necessários incentivos do governo, afirma o Banco Mundial.

Na Tanzânia, isso pode se provar um desafio. Christopher K. Chiza, ministro da agricultura do país, mostrou-se bem pouco entusiasmado com os serviços. “Ainda é um desafio para nós, os agricultores não sabem mexer nesses negócios (celulares)”, disse Chiza. “Talvez em um ou dois anos, mas no momento, ainda temos ressalvas.”

Patricia Campos Mello is reporting from Tanzania as a fellow with the International Reporting Project (IRP).